Fui o 4º dos 5 filhos que a minha mãe teve, e devo confessar que as coisas não começaram muito bem. Ainda não tinha nascido e já percebia que todo o mundo ficara chateado por eu “aparecer”.
A minha mãe dizia que não tinha a culpa, o meu pai nem queria ouvir falar que ia ter mais um filho; e eu que afinal era o único que não tinha mesmo culpa nenhuma, fui ficando à espera dos acontecimentos.
Quando a minha mãe foi para a maternidade, eu tratei de dar o menos trabalho possível, nasci o mais depressa que pude; quando me puseram nos braços da minha mãe, ela mirou-me todo e paraceu-me que ficou satisfeita.
Meteram-me então numa alcofa sem fôrro, aí eu apanhei um grande susto pois receei que me fossem vender na praça, afinal aquilo só queria dizer que a maternidade era “rasca”.
Fui sempre muito mansinho, mas lá diz o ditado que “Quem não chora, não mama”, talvez por isso eu fui criado a biberon. O meu irmão João, que tinha 15 meses, dava muito trabalho, por essa razão quase se esqueciam de mim e eu para não me aborrecer, comecei a chuchar no meu dedinho, depois queriam que eu perdesse o costume, mas eu escondia a cabeça debaixo da roupa e chuchava sempre.
Um dia em que reclamava a minha comida; por causa dos abusos de vez em quando tinha de lembrar que existia, o tal meu irmão meteu-me na boca uma coisa enorme, se a minha mãe não vem tão depressa ele era capaz de me sofucar com aquilo. Soube mais tarde que era uma banana, que pena não ter podido aproveitar na altura, agora muitas vezes quero-as e não as tenho!
Com um mês estive muito doente, nessa altura vi a minha mãe tão aflita que fiquei com a certeza de que ela gostava tanto de mim como dos outros. Logo a seguir houve um grande tremor de terra, eu não tive medo! Não sabia o que aquilo era! Até achei piada, tudo a abanar, a minha mãe pegou em mim ao colo, acordou os meus irmãos e fugimos todos para a rua. Foi uma noite de Stº António, e foi um fartote de colo também!
Fui crescendo sem grandes problemas, fui sempre muito tímido, só espevitei quando entrei para a escola. Aí eu era o menino bonito da professora, por ser sossegado e esperto. É que eu, muito caladinho, ía vendo e ouvindo tudo com atenção e sabia mais do que muita gente julgava.
Sempre me chamaram Bé. Eu gostava, parecia-me que era uma forma carinhosa de me tratarem. quando deixei de gostar de ser assím tratado, e passei a querer ser antes o Álvaro, comecei a perceber que já não era criança.

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